sábado, 25 de janeiro de 2014

Horas de cristal

Uma vida em cristal
Em que não se está bem
Nem mal
E o melhor ainda vem

Está à nossa frente
Nas voltas do caminho
E a gente confia e sente
Que é só mais um bocadinho

E passamos assim o tempo
As horas de frágil cristal

Nem bem, nem mal

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Hosana

A minha religião é amar-te

O teu corpo o livro sagrado
Em que descubro os fundamentos da fé

Comungo em cada um dos teus poros

Por ti, contigo, em ti
Vejo todos os milagres
E a prova irrefutável
De que tudo é amor

Em ti ressuscito
Encontro a salvação
A vida eterna

Abençoado o teu ventre
A tua boca, as tuas mamas

A tua cona, minha deusa
É o templo em que te venero
Nela te glorifico
E recebo a graça
Da revelação
Do mistério da criação

Ámen

Vai

Se aqui estivesses, beijava-te ternamente.
Dizia-te que tens um compromisso inadiável contigo própria, só contigo, mais ninguém.
Que tens que te encontrar, porque te tens perdido.
E que te amo. Mas isso tu já sabes.

Tens que descobrir o resto.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Passo suavemente

Passo suavemente, quase sem tocar, as pontas dos dedos pelo meu próprio rosto. Vou desenhando os contornos do nariz, dos lábios, da linha do queixo. Subo lentamente até às orelhas e detenho-me por instantes nessa pele delicada, nessa carne tenra, lasciva. Continuo com os dedos, a ponta dos dedos, quase sem tocar, pela testa. São suaves, quase seda, os pelos das sobrancelhas. Atinjo as pálpebras, que acaricio. Sinto-me bem, assim.

Nunca me acariciaste desta maneira. E é bom. Descobri-o agora, enquanto descobria o meu rosto, os contornos do meu rosto. São boas, as minhas carícias.

Até hoje, nas pontas dos dedos, fui sabendo o teu rosto, o teu corpo, de cor. Talvez tenha conhecido outros corpos, mas assim, na ponta dos dedos, conheço o teu.

E, às vezes, arrepio-me. Como quando te toco e não me queres. Quando o teu corpo me rejeita com um subtil, quase imperceptível movimento. Pode ser que não te apercebas. Às vezes, talvez nem eu me aperceba. Mas as pontas dos meus dedos sabem sempre.


Porque o nosso amor é, antes de mais, epidérmico. Amamo-nos em cada poro da nossa pele. Por isso, é um segredo para mim quando te toco e não me queres.

Em ti

Se o meu coração bate no teu peito
Se o meu sangue corre nas tuas veias
Se os meus sonhos são contigo
Se o meu desejo é no teu corpo
Sou teu.

Sou em ti. 

Um dia sou pai

Um dia sou pai
E volto a ser pai num outro
E desde esse dia, do primeiro
Sou pai todos os dias
Com sol
Ou chuva intensa
Como a que hoje, Dia do Pai, cai
Amo as minhas filhas

E delas são todos os meus dias.

Um chá de fim de tarde

Um chá de fim de tarde na esplanada do jardim
Perdermo-nos por travessas e vielas
Debaixo da centenária árvore entrelaçada
A tua mão, a minha
Entrelaçadas
As estrelas
No céu
A basílica iluminada
Tu
O casario de Lisboa
o Rio
A ponte
O lusco-fusco
Um olhar
A tua face encostada à minha
O teu cheiro
O encontro das nossas bocas
Uma na outra
Um abraço
Um perfeito fim de dia
E depois estar e não estar
Porque fico ainda em ti
Muito depois da despedida
E estranho a minha própria cama

Porque não te deitas ao meu lado

Breve história de quase tudo sem epílogo

Emerges do tempo antigo
Desta vida, de outras
De sempre
Voltas a mim
Nunca te deixei
Estiveste sempre aqui

Um reencontro digital
O Chino
O prazer esquecido de te cheirar
E tocar
E beijar
Amiga

Depois verbalizamos enlevos
Escrevemos desejos e sonhos
Virtualizamos este amor concreto

Materializamos
Seguras-me as mãos
E amo-te assim
Em gestos simples
E quando te abraço
E te fechas e retrais
Amo-te mais

Dizes-me
“Mas a vida, amor.”
Com ponto

Em contraponto
Amor de todas as vidas
(…)

Somos um do outro.