Passo suavemente, quase sem tocar, as pontas dos dedos
pelo meu próprio rosto. Vou desenhando os contornos do nariz, dos lábios, da
linha do queixo. Subo lentamente até às orelhas e detenho-me por instantes
nessa pele delicada, nessa carne tenra, lasciva. Continuo com os dedos, a ponta
dos dedos, quase sem tocar, pela testa. São suaves, quase seda, os pelos das
sobrancelhas. Atinjo as pálpebras, que acaricio. Sinto-me bem, assim.
Nunca me acariciaste desta maneira. E é bom. Descobri-o
agora, enquanto descobria o meu rosto, os contornos do meu rosto. São boas, as
minhas carícias.
Até hoje, nas pontas dos dedos, fui sabendo o teu rosto, o
teu corpo, de cor. Talvez tenha conhecido outros corpos, mas assim, na ponta
dos dedos, conheço o teu.
E, às vezes, arrepio-me. Como quando te toco e não me
queres. Quando o teu corpo me rejeita com um subtil, quase imperceptível
movimento. Pode ser que não te apercebas. Às vezes, talvez nem eu me aperceba.
Mas as pontas dos meus dedos sabem sempre.
Porque o nosso amor é, antes de mais, epidérmico.
Amamo-nos em cada poro da nossa pele. Por isso, é um segredo para mim quando te
toco e não me queres.